sábado, 26 de fevereiro de 2011


O Manifesto

.O Sonhador é o homem que vive muito bem a vida. Para ele, viver muito bem a vida é nada mais nada menos que inventá-la.

. O Sonhador mora na sua Casa Inventada. Não tem endereço permanente, já que toda imaginação vive mudando de lugar.

. Ele mantém um endereço fixo para receber as contas de luz, água e impostos. É onde vai chegar do trabalho, fazer a salada, ajudar na lição dos filhos e na armação das suas pipas e rabiolas; arrumar a biblioteca, as tintas, os pincéis, o chuveiro quando está quebrado; ler o jornal, levar as crianças para a cama e abraçar quem o espera.

. O Sonhador raramente tem tempo de jogar conversa fora. Na sua porta, há sempre uma fila de Sonhem-me esperando ser sonhados. Eles chegam muitos de uma só vez e a porta do Sonhador se ilumina toda com essas cintilâncias.

. O ofício do Sonhador é sonhar. Ele não tem hora para começar nem para terminar; depende da escolha do material para a sonhação: se palavras, tintas, idéias, pedra, pano, barro… Depende de para onde o vento sopra, das marés, da lua, de uma voz que canta na casa vizinha, e principalmente do que é que os sonhos esperam dele.

. Caso seja interpelado pela exclamação (geralmente indignada): “Mas você só pode estar sonhando!”, o Sonhador não deve hesitar em responder: “Com toda certeza, meu senhor”.

. O direito à propriedade não se aplica ao Sonhador. Os sonhos são matéria intangível, além de serem intercomunicantes, estando, por essa razão, impossibilitados de subjugar-se a um dono.

. Cabe ao Sonhador sonhar por si mesmo. E pelas pessoas à sua volta que carecem de matéria onírica.

. A matéria onírica do Sonhador pode estar nas coisas desdenhadas pela maioria das pessoas: uma gota de chuva, um prego enferrujado, uma tesoura desafiada, agulha sem ponta, chave que se perdeu da fechadura, garrafa vazia encostada no poste, buraco de fechadura de casa sem inquilino, relógio sem ponteiro, pneu furado, raio de sol,cabo de guarda-chuva, garatuja de menino, caco de espelho…

. Quando um Sonhador se depara com um muro, costuma apalpá-lo, milímetro por milímetro, enquanto vai se perguntando por que é que os homens se aprimoram em se afastar uns dos outros de maneira tão dura. Que desperdício de pedra e de tinta! Então salta o muro.

. O Sonhador que se pergunta, à maneira zen, se é, ele próprio, um homem sonhando ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando ser um homem, está a salvo das dúvidas cotidianas.

.O Sonhador não busca, ele foge de suas idealizações e das alheias.
Portanto, ele se contenta com encontrar o que se apresenta em seu caminho.

. Todo Sonhador dorme pouco, pois os sonhos sonhados no sono não são matéria propícia para seu trabalho artístico. Prefere os que batem à porta, e vive pronto para atendê-los bem desperto, em puro devaneio.

. Há Sonhadores que trabalham em correios, em barcos, em aviões, em construção de casas, em escritórios, nas caixas de supermercados, em bilheteria de teatro, em chapelarias, em culinária, em chefia, em reforma de roupa, em escolas, em pedágio, em bibliotecas, em pedalar bicicleta, em pentear o vento… (Até hoje nunca se ouviu falar de um Sonhador que trabalhasse para a guerra.)

. Os Sonhadores se reconhecem uns aos outros por uma inevitável atração do olhar e pela vontade de se convidar para sentar num banco de jardim.

Outra forma de reconhecimento é um dos Sonhadores enfiar a mão no bolso, tirar de lá um nada (o nada é matéria invisível indispensável a todo sonhador). Então ambos passam a se alegrar juntos pelo achado. Muitas vezes chegam a pular e a gritar de entusiasmo. Os não- sonhadores observam e torcem o nariz, apertando o passo.

. Todo homem que tem vazio o Lugar de Sonhar é porque esqueceu de carregar até o futuro a Criança que foi um dia.

. O Sonhador costuma ser mais pentimental do que sentimental. É que os pentimentos são camadas transparentes, pintadas umas sobre as outras nas dobras na memória, e trazem maior desafio do que os sentimentos, pela ambigüidade que despertam. Sem nitidez, só se deixam vislumbrar. E o Sonhador é o homem, por excelência, atraído por mistérios e ambivalências.

. O Sonhador não vive de recordações (elas, quando se lembram dele é que pedem para visitá-lo). Prefere lembrar-se do futuro.

. Vai de coração aberto ao encontro dos acontecimentos vários. Porém não tem como admitir a competitividade e outros ruídos que insistem em sufocar a vida dos sonhos.

. Todo Sonhador carrega no bolso, ao invés de fósforo ou isqueiro, um acendedor de vulcões.

. A sonhação do verdadeiro Sonhador parece ser incompatível com a ilusão, embora as ilusões estejam na mesa dele, junto das outras matérias com que compõe seu trabalho. As ilusões, muito coloridas de desejos, podem atrapalhar e até impedir o trabalho de sonhação. Por isso, o Sonhador prefere ocupar-se delas somente nas horas vagas.

. Quando se depara com uma flor, um floco de neve, de algodão- doce, uma semente, um nascer ou pôr-do-sol, uma criança, uma estrela-cadente, o Sonhador se ajoelha, o que costuma causar espanto nos transeuntes.

. A Mãe Sonhadora sonha por seu bebê enquanto ele não tem meios de realizar seu devaneio sozinho. Ou por estar ocupado em compor seu corpinho dentro da barriga, ou, depois que nasceu, por estar muito envolvido no trabalho de mamar, arrotar, defecar, regurgitar, urinar, abraçar, choramingar, dormir, acordar, espantar-se, escutar, tocar a mãe que o está sonhando. Súbito, de uma hora para outra, ele se vê Sonhador de seus sonhos. A mãe, então, vai em busca dos dela.

. Toda criança é um Sonhador de carteirinha. Mas, por sua vulnerabilidade, é passível de ser desviada dos seus sonhos por adultos inexperientes na matéria.

. Quando um Sonhador soluça, é porque tem cardumes deSonhem-mes engasgados na garganta, querendo se tornar poema, pintura, desenho, história, partitura, dança, mímica, palhaçada, escultura, sonata, ciranda.

. Os Sonhem-me, quando não atendidos logo, podem manifestar-se via espirro, tosse, tiques, coceiras, insônia, raiva-não-se-sabe-de-quê… É aconselhável que o Sonhador logo os transforme. Do contrário estará arriscado a morrer de tédio.




autor desconhecido

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