segunda-feira, 5 de junho de 2017

Se não é gripe, é crônica


Não consigo respirar! Abro os olhos para a escuridão e meu desespero aumenta. Levanto a cabeça na esperança de mais ar, mas ela lateja tanto que volto a deitar. Desesperado e sem querer perturbar o sono dele, levanto arrastando comigo cobertor e travesseiro e vou me instalar na sala. Numa tentativa de vencer o vírus que me domina engulo resignado o antibiótico receitado pelo médico do pronto-socorro. E assim tem início mais um dia de pensamentos ocos e de palavras simples me fugindo da memória.
Se eu fosse hipocondríaco até que estaria curtindo, mas não tive essa sorte. Que saco, tudo dói, a dor pulsa impiedosa, sinto meu corpo esfarelado, não sei mais nem que dia é hoje. Quem foi que abriu a janela? Que frio é esse? FECHA ESSA PORTA! Queria muito agora o chazinho da minha avó, receita secular que minha mãe fez questão de perder. E o tempo não passa. São seis e meia da manhã, não tenho a cara de pau de acordar ninguém nesta casa, meu nariz está totalmente obstruído, a televisão grita, não consigo ouvir nada, a cabeça parece que vai explodir. O dia promete.
Vou entrar na internet para ver se o médico me diagnosticou certo. Então, vamos lá! Vou começar pela cabeça. Dor de cabeça, dor na testa, dor nos olhos…. Acho melhor colocar que dói tudo do pescoço para cima. Mas também dói o peito. Será que escrevo dor do peito até a cabeça? Nossa… muita informação e estou cansado para ler tudo. Vou reduzir. Dor na cabeça toda, no peito, não respiro, não durmo, não quero incomodar ninguém e o meu apetite de sempre sumiu.
Resultados do meu autodiagnóstico: pode ser virose, como disse o médico. Se essa dor no peito permanecer até três dias é pneumonia. E se eu estiver com febre é dengue. E se for febre com alergia no corpo é aquela nova dengue, a Chikv (até parece um nome russo).
Já são 8 horas da manhã e vou acordar o Fábio. Acho que vou desmaiar. Não estou bem.
 Não estou nada bem.Quero colo, quero um remédio mágico, quero minha saúde de volta, quero meus vinte e poucos anos! Ops, peraí. Isso está indo longe demais. Entregar os pontos nunca foi a minha. Sabe o que mais? Vou tomar um banho, me arrumar e ir escrever umas crônicas lá na padaria da esquina. Vai ser melhor que aspirina.
© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Renata Mendes, Luiz Geraldo Benetton

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Capítulo nove do Livro " O MENINO DO DEDO VERDE" - Maurice Druon No qual os sábios nada descobrem, mas o próprio Tistu faz uma descoberta.




As pessoas grandes têm a mania de querer, a qualquer preço, explicar o inexplicável.
Ficam irritadas com tudo que as surpreende. E, logo que acontece no mundo algo novo, obstinam-se em querer provar que essa coisa nova se parece com outra que já conheciam há muito tempo.
Se um vulcão se extingue calmamente como um cigarro, eis logo uma dúzia de sábios com lunetas debruçando na cratera, escutando, cheirando, descendo por meios de cordas, esfolando os joelhos, enchendo tubos de ar, fazendo gráficos, discutindo, em vez de constatar simplesmente: "Este vulcão parou de fumegar; deve estar de nariz entupido!"
Afinal, será que já chegaram um dia a explicar como é que vulcões funcionam?
O mistério da cadeia de Mirapólvora forneceu às pessoas grandes um bom pretexto para se agitarem.
Os jornalistas e fotógrafos foram os primeiros a chegar, pois é esta a sua profissão. Ocuparam imediatamente todos os quartos do Hotel dos Embaixadores, o único da cidade.
Em seguida acorreram de toda parte, de trem, de avião, de táxi e até de bicicleta, os sábios que se chamam botânicos e que se dedicam a esquartejar as flores, dar-lhes os nomes mais difíceis e fazê-las secar entre mata-borrões, para ver quanto levam até perder o colorido.
É uma profissão que requer muitos estudos.
Quando os botânicos se reúnem, eles formam um congresso. Havia, portanto, em Mirapólvora um congresso de botânicos. Mas se existe uma infinita variedades de flores, em compensação só conhecemos três espécies de botânicos: os botânicos ilustres, os botânicos afamados e os botânicos eminentes. Eles se cumprimentam chamando-se: "Senhor... Senhor Professor... Meu prezado confrade..."
Como o hotel estava repleto de jornalistas que se recusavam a deixá-lo, foi necessário instalar um acampamento na praça principal, Parecia um circo. Mas bem menos divertido.
Tistu vivia ansioso.
- Se descobrem que fui eu - segredou ao Bigode - vai ser um Deus nos acuda...
- Não te preocupes - respondeu o jardineiro.
- Essa gente não sabe fazer nem mesmo um buquê.
Aposto os meus bigodes como nada descobrirão!
Com efeito, ao cabo de uma semana, durante a qual examinaram a lente cada flor e cada folha, os sábios continuavam na mesma.
As flores da cadeia não passavam de flores iguais às outras, era preciso reconhecer; sua única extravagância era terem terem crescido numa noite. Então os sábios começaram a discutir, acusando-se uns aos outros de mentira, fraude e ignorância. E então o acampamento ficou igualzinho a um circo.
Mas um congresso deve sempre terminar com declaração oficial. Os botânicos, portanto, acabaram redigindo a sua, cheia de palavras em latim, para que ninguém pudesse entender; falaram de condições atmosféricas particulares, de passarinhos que teriam deixado cair as sementes, e da excepcional fecundidade dos muros da cadeia, resultante de certo uso que os cães de Mirapólvora faziam deles. Em seguida foram embora para um outro lugar onde haviam descoberto uma cereja sem caroço, e Tistu recuperou a antiga tranquilidade.
E os prisioneiros no meio disso tudo? Vocês devem estar com vontade de saber o que pensavam a respeito.
Pois fiquem sabendo que a surpresa, agitação e emoção dos botânicos nada foram em comparação com o deslumbramento dos prisioneiros.
Como já não viam grades em suas celas, nem arame farpado ou pontas de ferro sobre os muros, esqueceram-se de fugir. Os mais resmungões pararam de reclamar, tão entusiasmados estavam em contemplar o que os cercava; os maus perderam o costume de zangar-se e brigar. A madressilva que brotava nas fechaduras impedia às portas que fechassem, mas os próprios ex-prisioneiros recusaram-se a ir embora, tal o gosto que tomaram pela jardinagem.
E a cadeia de Mirapólvora foi apontada como modelo em todo mundo.
Quem ficara mais contente? Tistu, é claro. Ele triunfava em segredo.
Mas cansa guardar um segredo.
Quando a gente está feliz, sente vontade de dizê-lo e até mesmo de gritá-lo. Ora, Bigode nem sempre dispunha de tempo para ouvir as confidências de Tistu.
Assim ele se acostumou, quando sentia o peso do segredo, a ir conversar com o pônei Ginástico.
As orelhas do Ginástico eram forradas de um belo veludo bege, muito macio. Tistu, ao passar, gostava de dizer-lhe algumas palavras.
-Ginástico, escuta bem o que vou te dizer então repete a ninguém - disse Tistu certa manhã ao encontrar-se com o pônei.
Ginástico  mexeu com a orelha.
- Descobri uma coisa extraordinária - disse Tistu em voz baixa. - As flores não deixam o mal ir adiante.




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Da costura e do corte


Juntou que fiz aniversário e, no mesmo dia, comecei um curso de corte e costura. Era parte dos desejos antigos e explicáveis: minha mãe costurava. Cresci em meio às linhas, agulhas, tesouras, fitas métricas.
Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas.
Inventei de perpetuar a tradição e, aos dezesseis, confeccionei para mim um macacão de popeline lilás, sob suas pacientes instruções. Foi a única peça que costuramos juntas – insuficiente para que eu absorvesse seu saber, o bastante para despertar a fome de pano.
Já sem ela, na faculdade, arriscava e abastecia meu guarda-roupa através do maquinário herdado. O corte e a costura tomaram ares de adivinhação, tentativa, erro, sorte. Funcionava. Faltava-me, porém, a técnica materna.
Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não pode mais fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.
Vasculhei os armários em busca de retalhos para a primeira aula. Encontrei uma panaiada tão antiga quanto o desejo de costurar direito. Cortes e retalhos do passado, gentilmente poupados pelas traças.
Foram todos comigo para a aula. Dentre eles, um, velhíssimo, intacto em sua abstrata estampa de cores, ainda tão cheias de vida. Presente de quem, afinal? Para mim ou para minha irmã, que também costumava ganhar os seus? Como surgira no acervo têxtil da família, e como resistira a tantas mudanças de endereço? Eu bem que já tentara várias vezes, fazer algo dele. Sua personalidade, no entanto, sempre trouxera dúvidas sobre o que poderia vir a ser – blusa? Saia? Echarpe? Talvez nem ele soubesse direito o que queria ser. Cogitei, há algum tempo, usá-lo para outro fim – pensando na hipótese dele, de fato, não ter nascido para vestir ninguém. Era tecido arrogante, eu duvidava que fosse se dar bem com outros panos num mesmo traje. Como um animal de estimação ciumento, que não autoriza seu dono a ter mais ninguém. Deu nisso: ele sempre retornou ao fundo do armário, que é para onde vão as coisas da categoria “depois-se-vê”.
Professora bateu os olhos nele e vi ali certa surpresa. “É seda javanesa, não se faz mais dessas!”. Explicado estava, ele não era um tecido qualquer e sabia disso. E não era ele, era “ela”. Naquela hora, no turbilhão sereno das lembranças, vi as tias falando “javanesa”. Jamais havia associado: javanesa é gentílica de Java. Java fica na Indonésia. A gente vive falando coisas sem prestar atenção às origens, aos significados. Por que a camiseta é regata? E a gola, olímpica? A calça, Capri? Só sei que a ancestral seda, num processo tardio, em breve sairá de seu casulo reverso. (Antes mesmo de eu tentar ler “O homem que sabia javanês”, aquele, do Lima Barreto.)
Corte é rompimento, morte. Costura, união. Corte e costura, de tão antagônicos, são complementares. Um não vive sem o outro, eles se precisam para que o feitio da vida se dê.

Por isso vou estudá-los. Para, além de ser autora da minha própria moda, aprender a viver com os dois. E também para mostrar que não perdi o fio da trama, tampouco abri mão dos sonhos já alinhavados. Será meu presente de Dia das Mães em longo prazo. Entregue à Dona Angelina com beijo e abraço apertado, embrulhado em papel-saudade.
Silmara Franco

terça-feira, 9 de maio de 2017

O PRIMEIRO BEIJO

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?
Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela?, perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era dificil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a ganganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao peneetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. o jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto a sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.
O ônibus parou, todosestavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar no chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélico, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia-se ntrigado; mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador de vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma  parte de seu corpo, sempre antes relaxava, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.





LISPECTOR, Clarice “O PRIMEIRO BEIJO E OUTROS CONTOS”. 6 ed. Editora Ática , São Paulo, 1992.P.20 - 22.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Chapéu Violeta - Por Erma Bombeck

  • Aos 3 anos
ela olha pra si mesma, e vê uma rainha.
  • Aos 8 anos
ela olha pra si mesma, e vê Cinderela.
  • Aos 15 anos
ela olha pra si mesma, vê uma bruxa e diz: - "Mãe, eu não posso ir pra escola desse jeito!"
  • Aos 20 anos
ela olha pra si mesma, e se vê: "muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa,
com cabelo muito liso/muito encaracolado", mas decide que vai sair assim mesmo...
  • Aos 25 anos
ela olha pra si mesma e se vê: "muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa,
com cabelo muito liso/muito encaracolado", mas decide que agora não há tempo
para consertar essas coisas. Então, sai assim mesmo...
  • Aos 30 anos
ela olha pra si mesma e se vê:"muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa,
com cabelo muito liso/muito encaracolado", mas diz: "sou uma boa pessoa" e sai mesmo assim...
  • Aos 35 anos
ela olha pra si mesma e se vê como é. Sai e vai para onde ela bem entender...
  • Aos 40 anos
ela olha pra si mesma e se lembra de todas pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo...
  • Aos 50 anos
ela olha pra si mesma e vê sabedoria, risos, habilidades... sai para o mundo e aproveita a vida...
  • Aos 60 anos
ela não se importa muito em olhar pra si mesma. Simplesmente põe um CHAPÉU VIOLETAe vai se divertir com a vida...
... Talvez devêssemos por o chapéu violeta mais cedo...!!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O clube dos teimosos


 

Componho esta crônicas para os habitantes de minha rua, para certas pessoas que residem na inconcreta cidade de Santaclara, para jovens, volúveis deusas que um dia me enfermaram de paixão. É pois com regular dose de espanto que descubro que tenho um leitor em Itaquaquecetuba, São Paulo. É de lá que me conta esse dr. N., e eu não vejo por que duvidar, que é engenheiro de profissão, tem 54 anos, uma esposa gaúcha e três filhas. Informa a seguir o dr. N. que dirige uma construtora que os negócios vão mais bem do que mal, que é vice-presidente de uma ONG ecológica, que nas férias acampa na Serra da Mantiqueira. Quem sou eu para supor que esses dados biográficos, quase cadastrais, são incorretos? Mas aí o dr. N. comete uma incorreção. O dr. N. me diz que entrou sem querer na vida errada. Que quando estava no científico ganhou um concurso literário, que na faculdade colaborou na revista do centro acadêmico. E que agora, "especialmente nos intermináveis fins de semana", fica pensando que, em vez de empresário, poderia ter sido escritor. O que é que eu acho?

Eu não acho nada, dr. N. Os cronistas são seres inconfiáveis, tratam no geral de bagatelas e de ninharias, não devem ter palpite em tão graves assuntos. No máximo posso lhe dizer, em homenagem ao apelo de seu post scriptum, que dá trabalho ficar horas a fio diante de uma tela, maquinando crônicas, contos, ameaços de novelas ou romances. Ganha-se mais pegando um cinema, assistindo a um concerto, colecionando cismares baldios. Já que isso de inspiração é como visita de médico, um aprendiz de escriba tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no teclado, dispô-las numa ordem razoável, dotá-las de algum ritmo, garimpar à procura da palavra precisa, da exata expressão, do claro conceito. Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a infinita paciência de recomeçar. Deve ainda dominar cada armadilha do idioma, manter-se em boas relações com entidades que atendem por nomes desgraciosos, tipo ênclise, próclise, mesóclise, para ficar só nessas. Embora os gregos tenham esgotado há milênios todas as situações dramáticas imagináveis, é essencial ousar a criação de algo novo, de original, de único. Mister também é ser disciplinado, obstinado quase. Provocar os demônios interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. É não desistir quando um branco se instala em sua mente e você percebe que nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia alguma circula nesse vácuo, por mais que tente convocá-los à ponta de seus dedos.

Se nada disso o assusta, dr. N., bem-vindo ao clube. Bem-vindo ao clube dos que escrevem não porque sonham com fama ou fortuna. Não porque os tente a fútil vaidade do elogio fácil. Não porque os atraia o falso brilho de um fardão. Bem-vindo ao clube dos que escrevem talvez por teimosos. Ou, quem sabe, porque nenhum outro talento lhes foi dado.

Tão-só essa tola compulsão de iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada, uma centelha a isso que chamam de condição humana.

Liberato Viera da Cunha