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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ARROZ DE CARRETEIRO

Autoria: Jayme Caetano Braun

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo.

PAJADA À MULHER

Composição: Jadir Oliveira / Paulo De Freitas Mendonça

Abro minh'alma cativa
Que amanheceu orvalhada
Querendo ser libertada
Por esta musa nativa
Deusa guardiã primitiva
Do segredo mais fecundo
Com sentimento profundo
Conforme o tema requer
Vamos pajar à mulher
Progenitora do mundo

Este princípio que fitas
Num horizonte de sonho
A ele eu me proponho
Pois há rimas infinitas
Com atitudes bonitas
Tem a mulher, com certeza,
Meiguice, amor, firmeza
E um dom de protetora
Seja santa ou pecadora
Transcende a própria beleza

Antes mesmo de ser gente
Somos dependentes dela
E quando abrimos a goela
Para este mundo vivente
É ela quem faz a frente
Para apontar o caminho
É tão grande o seu carinho
Seu seio, tão importante,
Como quem diz “segue adiante
Que eu não te deixo sozinho”

Desde a mãe, primeiro amor,
A mulher está presente
No coração inocente
Que desabrocha qual flor
Depois quando sonhador
A professora primeira,
A namorada trigueira
Que pra vida dá sentido
E quando amadurecido,
Os braços da companheira

Quantos poetas e cantores
Descreveram sua beleza
Por verem nela a leveza
Das asas dos beija-flores
Trazendo coplas de amores
Entre sorrisos e prantos
Desde o paraiso, quantos
De seu ventre já nasceram
E quantos por ela morreram
Perdidos por seus encantos?

Ela conhece os segredos
Que carregamos na alma
Sabe desvendar com calma
Todos os nossos enredos
Sabe acalentar os medos
A sua alma é tão pura
Com sua mão nos segura
A cada dia que nasce
Na expressão de sua face
Amor, carinho e ternura

Por ser um simples mortal
Não consigo descrevê-la
Pois compará-la a uma estrela
Não seria original
Seu brilho não tem igual
Resplandece eternamente
Compará-la a uma vertente
Ou ao diamante mais raro
É pouco, não a comparo
Ela é mulher simplesmente

Merece o nosso respeito
E um pedido de perdão
Por crimes da inquisição
O mais brutal preconceito
Ao negarem seu direito
Desde lá, à atualidade
Estão negando a igualdade
De uma forma desmedida
À geradora da vida
De toda a humanidade

No xucro céu dos cantores
É uma Deusa iluminada
Que santifica a pajada
Na alma dos pajadores
Traz o perfume das flores
Colhidas no paraíso
No lume do seu sorriso
Arco íris de magia
Que vem bebendo poesia
Na cacimba do improviso

sábado, 1 de outubro de 2011

ORAÇÃO AO TEMPO - COMPOSTA POR CAETANO VELOSO

És um senhor tão bonito

Quanto a cara do meu filho

Tempo tempo tempo tempo

Vou te fazer um pedido

Tempo tempo tempo tempo…

Compositor de destinos

Tambor de todos os rítmos

Tempo tempo tempo tempo

Entro num acordo contigo

Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo

E pareceres contínuo

Tempo tempo tempo tempo

És um dos deuses mais lindos

Tempo tempo tempo tempo…

Que sejas ainda mais vivo

No som do meu estribilho

Tempo tempo tempo tempo

Ouve bem o que te digo

Tempo tempo tempo tempo…

Peço-te o prazer legítimo

E o movimento preciso

Tempo tempo tempo tempo

Quando o tempo for propício

Tempo tempo tempo tempo…

De modo que o meu espírito

Ganhe um brilho definido

Tempo tempo tempo tempo

E eu espalhe benefícios

Tempo tempo tempo tempo…

O que usaremos prá isso

Fica guardado em sigilo

Tempo tempo tempo tempo

Apenas contigo e comigo

Tempo tempo tempo tempo…

E quando eu tiver saído

Para fora do teu círculo

Tempo tempo tempo tempo

Não serei nem terás sido

Tempo tempo tempo tempo…

Ainda assim acredito

Ser possível reunirmo-nos

Tempo tempo tempo tempo

Num outro nível de vínculo

Tempo tempo tempo tempo…

Portanto peço-te aquilo

E te ofereço elogios

Tempo tempo tempo tempo

Nas rimas do meu estilo

Tempo tempo tempo tempo…