segunda-feira, 5 de junho de 2017

Se não é gripe, é crônica


Não consigo respirar! Abro os olhos para a escuridão e meu desespero aumenta. Levanto a cabeça na esperança de mais ar, mas ela lateja tanto que volto a deitar. Desesperado e sem querer perturbar o sono dele, levanto arrastando comigo cobertor e travesseiro e vou me instalar na sala. Numa tentativa de vencer o vírus que me domina engulo resignado o antibiótico receitado pelo médico do pronto-socorro. E assim tem início mais um dia de pensamentos ocos e de palavras simples me fugindo da memória.
Se eu fosse hipocondríaco até que estaria curtindo, mas não tive essa sorte. Que saco, tudo dói, a dor pulsa impiedosa, sinto meu corpo esfarelado, não sei mais nem que dia é hoje. Quem foi que abriu a janela? Que frio é esse? FECHA ESSA PORTA! Queria muito agora o chazinho da minha avó, receita secular que minha mãe fez questão de perder. E o tempo não passa. São seis e meia da manhã, não tenho a cara de pau de acordar ninguém nesta casa, meu nariz está totalmente obstruído, a televisão grita, não consigo ouvir nada, a cabeça parece que vai explodir. O dia promete.
Vou entrar na internet para ver se o médico me diagnosticou certo. Então, vamos lá! Vou começar pela cabeça. Dor de cabeça, dor na testa, dor nos olhos…. Acho melhor colocar que dói tudo do pescoço para cima. Mas também dói o peito. Será que escrevo dor do peito até a cabeça? Nossa… muita informação e estou cansado para ler tudo. Vou reduzir. Dor na cabeça toda, no peito, não respiro, não durmo, não quero incomodar ninguém e o meu apetite de sempre sumiu.
Resultados do meu autodiagnóstico: pode ser virose, como disse o médico. Se essa dor no peito permanecer até três dias é pneumonia. E se eu estiver com febre é dengue. E se for febre com alergia no corpo é aquela nova dengue, a Chikv (até parece um nome russo).
Já são 8 horas da manhã e vou acordar o Fábio. Acho que vou desmaiar. Não estou bem.
 Não estou nada bem.Quero colo, quero um remédio mágico, quero minha saúde de volta, quero meus vinte e poucos anos! Ops, peraí. Isso está indo longe demais. Entregar os pontos nunca foi a minha. Sabe o que mais? Vou tomar um banho, me arrumar e ir escrever umas crônicas lá na padaria da esquina. Vai ser melhor que aspirina.
© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Renata Mendes, Luiz Geraldo Benetton

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Capítulo nove do Livro " O MENINO DO DEDO VERDE" - Maurice Druon No qual os sábios nada descobrem, mas o próprio Tistu faz uma descoberta.




As pessoas grandes têm a mania de querer, a qualquer preço, explicar o inexplicável.
Ficam irritadas com tudo que as surpreende. E, logo que acontece no mundo algo novo, obstinam-se em querer provar que essa coisa nova se parece com outra que já conheciam há muito tempo.
Se um vulcão se extingue calmamente como um cigarro, eis logo uma dúzia de sábios com lunetas debruçando na cratera, escutando, cheirando, descendo por meios de cordas, esfolando os joelhos, enchendo tubos de ar, fazendo gráficos, discutindo, em vez de constatar simplesmente: "Este vulcão parou de fumegar; deve estar de nariz entupido!"
Afinal, será que já chegaram um dia a explicar como é que vulcões funcionam?
O mistério da cadeia de Mirapólvora forneceu às pessoas grandes um bom pretexto para se agitarem.
Os jornalistas e fotógrafos foram os primeiros a chegar, pois é esta a sua profissão. Ocuparam imediatamente todos os quartos do Hotel dos Embaixadores, o único da cidade.
Em seguida acorreram de toda parte, de trem, de avião, de táxi e até de bicicleta, os sábios que se chamam botânicos e que se dedicam a esquartejar as flores, dar-lhes os nomes mais difíceis e fazê-las secar entre mata-borrões, para ver quanto levam até perder o colorido.
É uma profissão que requer muitos estudos.
Quando os botânicos se reúnem, eles formam um congresso. Havia, portanto, em Mirapólvora um congresso de botânicos. Mas se existe uma infinita variedades de flores, em compensação só conhecemos três espécies de botânicos: os botânicos ilustres, os botânicos afamados e os botânicos eminentes. Eles se cumprimentam chamando-se: "Senhor... Senhor Professor... Meu prezado confrade..."
Como o hotel estava repleto de jornalistas que se recusavam a deixá-lo, foi necessário instalar um acampamento na praça principal, Parecia um circo. Mas bem menos divertido.
Tistu vivia ansioso.
- Se descobrem que fui eu - segredou ao Bigode - vai ser um Deus nos acuda...
- Não te preocupes - respondeu o jardineiro.
- Essa gente não sabe fazer nem mesmo um buquê.
Aposto os meus bigodes como nada descobrirão!
Com efeito, ao cabo de uma semana, durante a qual examinaram a lente cada flor e cada folha, os sábios continuavam na mesma.
As flores da cadeia não passavam de flores iguais às outras, era preciso reconhecer; sua única extravagância era terem terem crescido numa noite. Então os sábios começaram a discutir, acusando-se uns aos outros de mentira, fraude e ignorância. E então o acampamento ficou igualzinho a um circo.
Mas um congresso deve sempre terminar com declaração oficial. Os botânicos, portanto, acabaram redigindo a sua, cheia de palavras em latim, para que ninguém pudesse entender; falaram de condições atmosféricas particulares, de passarinhos que teriam deixado cair as sementes, e da excepcional fecundidade dos muros da cadeia, resultante de certo uso que os cães de Mirapólvora faziam deles. Em seguida foram embora para um outro lugar onde haviam descoberto uma cereja sem caroço, e Tistu recuperou a antiga tranquilidade.
E os prisioneiros no meio disso tudo? Vocês devem estar com vontade de saber o que pensavam a respeito.
Pois fiquem sabendo que a surpresa, agitação e emoção dos botânicos nada foram em comparação com o deslumbramento dos prisioneiros.
Como já não viam grades em suas celas, nem arame farpado ou pontas de ferro sobre os muros, esqueceram-se de fugir. Os mais resmungões pararam de reclamar, tão entusiasmados estavam em contemplar o que os cercava; os maus perderam o costume de zangar-se e brigar. A madressilva que brotava nas fechaduras impedia às portas que fechassem, mas os próprios ex-prisioneiros recusaram-se a ir embora, tal o gosto que tomaram pela jardinagem.
E a cadeia de Mirapólvora foi apontada como modelo em todo mundo.
Quem ficara mais contente? Tistu, é claro. Ele triunfava em segredo.
Mas cansa guardar um segredo.
Quando a gente está feliz, sente vontade de dizê-lo e até mesmo de gritá-lo. Ora, Bigode nem sempre dispunha de tempo para ouvir as confidências de Tistu.
Assim ele se acostumou, quando sentia o peso do segredo, a ir conversar com o pônei Ginástico.
As orelhas do Ginástico eram forradas de um belo veludo bege, muito macio. Tistu, ao passar, gostava de dizer-lhe algumas palavras.
-Ginástico, escuta bem o que vou te dizer então repete a ninguém - disse Tistu certa manhã ao encontrar-se com o pônei.
Ginástico  mexeu com a orelha.
- Descobri uma coisa extraordinária - disse Tistu em voz baixa. - As flores não deixam o mal ir adiante.




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Da costura e do corte


Juntou que fiz aniversário e, no mesmo dia, comecei um curso de corte e costura. Era parte dos desejos antigos e explicáveis: minha mãe costurava. Cresci em meio às linhas, agulhas, tesouras, fitas métricas.
Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas.
Inventei de perpetuar a tradição e, aos dezesseis, confeccionei para mim um macacão de popeline lilás, sob suas pacientes instruções. Foi a única peça que costuramos juntas – insuficiente para que eu absorvesse seu saber, o bastante para despertar a fome de pano.
Já sem ela, na faculdade, arriscava e abastecia meu guarda-roupa através do maquinário herdado. O corte e a costura tomaram ares de adivinhação, tentativa, erro, sorte. Funcionava. Faltava-me, porém, a técnica materna.
Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não pode mais fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.
Vasculhei os armários em busca de retalhos para a primeira aula. Encontrei uma panaiada tão antiga quanto o desejo de costurar direito. Cortes e retalhos do passado, gentilmente poupados pelas traças.
Foram todos comigo para a aula. Dentre eles, um, velhíssimo, intacto em sua abstrata estampa de cores, ainda tão cheias de vida. Presente de quem, afinal? Para mim ou para minha irmã, que também costumava ganhar os seus? Como surgira no acervo têxtil da família, e como resistira a tantas mudanças de endereço? Eu bem que já tentara várias vezes, fazer algo dele. Sua personalidade, no entanto, sempre trouxera dúvidas sobre o que poderia vir a ser – blusa? Saia? Echarpe? Talvez nem ele soubesse direito o que queria ser. Cogitei, há algum tempo, usá-lo para outro fim – pensando na hipótese dele, de fato, não ter nascido para vestir ninguém. Era tecido arrogante, eu duvidava que fosse se dar bem com outros panos num mesmo traje. Como um animal de estimação ciumento, que não autoriza seu dono a ter mais ninguém. Deu nisso: ele sempre retornou ao fundo do armário, que é para onde vão as coisas da categoria “depois-se-vê”.
Professora bateu os olhos nele e vi ali certa surpresa. “É seda javanesa, não se faz mais dessas!”. Explicado estava, ele não era um tecido qualquer e sabia disso. E não era ele, era “ela”. Naquela hora, no turbilhão sereno das lembranças, vi as tias falando “javanesa”. Jamais havia associado: javanesa é gentílica de Java. Java fica na Indonésia. A gente vive falando coisas sem prestar atenção às origens, aos significados. Por que a camiseta é regata? E a gola, olímpica? A calça, Capri? Só sei que a ancestral seda, num processo tardio, em breve sairá de seu casulo reverso. (Antes mesmo de eu tentar ler “O homem que sabia javanês”, aquele, do Lima Barreto.)
Corte é rompimento, morte. Costura, união. Corte e costura, de tão antagônicos, são complementares. Um não vive sem o outro, eles se precisam para que o feitio da vida se dê.

Por isso vou estudá-los. Para, além de ser autora da minha própria moda, aprender a viver com os dois. E também para mostrar que não perdi o fio da trama, tampouco abri mão dos sonhos já alinhavados. Será meu presente de Dia das Mães em longo prazo. Entregue à Dona Angelina com beijo e abraço apertado, embrulhado em papel-saudade.
Silmara Franco

terça-feira, 9 de maio de 2017

O PRIMEIRO BEIJO

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?
Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela?, perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era dificil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a ganganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao peneetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. o jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto a sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.
O ônibus parou, todosestavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar no chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélico, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia-se ntrigado; mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador de vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma  parte de seu corpo, sempre antes relaxava, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.





LISPECTOR, Clarice “O PRIMEIRO BEIJO E OUTROS CONTOS”. 6 ed. Editora Ática , São Paulo, 1992.P.20 - 22.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Chapéu Violeta - Por Erma Bombeck

  • Aos 3 anos
ela olha pra si mesma, e vê uma rainha.
  • Aos 8 anos
ela olha pra si mesma, e vê Cinderela.
  • Aos 15 anos
ela olha pra si mesma, vê uma bruxa e diz: - "Mãe, eu não posso ir pra escola desse jeito!"
  • Aos 20 anos
ela olha pra si mesma, e se vê: "muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa,
com cabelo muito liso/muito encaracolado", mas decide que vai sair assim mesmo...
  • Aos 25 anos
ela olha pra si mesma e se vê: "muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa,
com cabelo muito liso/muito encaracolado", mas decide que agora não há tempo
para consertar essas coisas. Então, sai assim mesmo...
  • Aos 30 anos
ela olha pra si mesma e se vê:"muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa,
com cabelo muito liso/muito encaracolado", mas diz: "sou uma boa pessoa" e sai mesmo assim...
  • Aos 35 anos
ela olha pra si mesma e se vê como é. Sai e vai para onde ela bem entender...
  • Aos 40 anos
ela olha pra si mesma e se lembra de todas pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo...
  • Aos 50 anos
ela olha pra si mesma e vê sabedoria, risos, habilidades... sai para o mundo e aproveita a vida...
  • Aos 60 anos
ela não se importa muito em olhar pra si mesma. Simplesmente põe um CHAPÉU VIOLETAe vai se divertir com a vida...
... Talvez devêssemos por o chapéu violeta mais cedo...!!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O clube dos teimosos


 

Componho esta crônicas para os habitantes de minha rua, para certas pessoas que residem na inconcreta cidade de Santaclara, para jovens, volúveis deusas que um dia me enfermaram de paixão. É pois com regular dose de espanto que descubro que tenho um leitor em Itaquaquecetuba, São Paulo. É de lá que me conta esse dr. N., e eu não vejo por que duvidar, que é engenheiro de profissão, tem 54 anos, uma esposa gaúcha e três filhas. Informa a seguir o dr. N. que dirige uma construtora que os negócios vão mais bem do que mal, que é vice-presidente de uma ONG ecológica, que nas férias acampa na Serra da Mantiqueira. Quem sou eu para supor que esses dados biográficos, quase cadastrais, são incorretos? Mas aí o dr. N. comete uma incorreção. O dr. N. me diz que entrou sem querer na vida errada. Que quando estava no científico ganhou um concurso literário, que na faculdade colaborou na revista do centro acadêmico. E que agora, "especialmente nos intermináveis fins de semana", fica pensando que, em vez de empresário, poderia ter sido escritor. O que é que eu acho?

Eu não acho nada, dr. N. Os cronistas são seres inconfiáveis, tratam no geral de bagatelas e de ninharias, não devem ter palpite em tão graves assuntos. No máximo posso lhe dizer, em homenagem ao apelo de seu post scriptum, que dá trabalho ficar horas a fio diante de uma tela, maquinando crônicas, contos, ameaços de novelas ou romances. Ganha-se mais pegando um cinema, assistindo a um concerto, colecionando cismares baldios. Já que isso de inspiração é como visita de médico, um aprendiz de escriba tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no teclado, dispô-las numa ordem razoável, dotá-las de algum ritmo, garimpar à procura da palavra precisa, da exata expressão, do claro conceito. Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a infinita paciência de recomeçar. Deve ainda dominar cada armadilha do idioma, manter-se em boas relações com entidades que atendem por nomes desgraciosos, tipo ênclise, próclise, mesóclise, para ficar só nessas. Embora os gregos tenham esgotado há milênios todas as situações dramáticas imagináveis, é essencial ousar a criação de algo novo, de original, de único. Mister também é ser disciplinado, obstinado quase. Provocar os demônios interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. É não desistir quando um branco se instala em sua mente e você percebe que nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia alguma circula nesse vácuo, por mais que tente convocá-los à ponta de seus dedos.

Se nada disso o assusta, dr. N., bem-vindo ao clube. Bem-vindo ao clube dos que escrevem não porque sonham com fama ou fortuna. Não porque os tente a fútil vaidade do elogio fácil. Não porque os atraia o falso brilho de um fardão. Bem-vindo ao clube dos que escrevem talvez por teimosos. Ou, quem sabe, porque nenhum outro talento lhes foi dado.

Tão-só essa tola compulsão de iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada, uma centelha a isso que chamam de condição humana.

Liberato Viera da Cunha

 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Osterbaum — ou “Árvore da Páscoa”



Tradição entre os alemães, o Osterbaum — ou “Árvore da Páscoa” — tem sua continuidade na Alemanha de hoje e foi levada a outros países pelos imigrantes, entre eles os que vieram para o Brasil.
A árvore é montada com um galho seco, que simboliza a frieza e morte do sepulcro de Jesus Cristo e enfeitada com ovos e flores, que simbolizam o renascer e a vida.
Levar a tradição alemã para dentro de casa é muito simples. Basta um galho seco, flores artificiais, dessas compradas em lojas de R$ 1,99, cascas de ovos de galinha, tinta e verniz.
No galho, são colocadas as cascas de ovos coloridas. O ovo significa ou simboliza que há vida dentro dele e dali ela brota, apesar de estar escondida até o momento em que a ruptura acontece.
Para preparar os ovos, o processo é simples: reserve cascas de ovos, que devem ter apenas um furo pequeno, pelo qual se retirou o ovo. Lave-as e deixe-as secar de cabeça (furo) para baixo.
Pinte as cascas com tinta plástica ou tinta de papel crepom. Também é possível desenhar e pintar símbolos religiosos ou motivos para as crianças. 
Recorte tiras finas e também pequenos círculos de papel branco; tape o furo colando por cima os círculos e, das tiras, faça alças que também serão coladas na parte superior dos ovos. Também pode envernizar os ovos depois de pintados.
Na Sexta-Feira Santa, coloque em um vaso um galho totalmente seco, sem nenhuma folha, deixando-o exposto em local visível na casa e, finalmente, no Domingo de Páscoa, ao levantar, ornamente-o pendurando os ovos. O Osterbaum pode ser retirado a partir do segundo Domingo após a Páscoa.
Aproveitando a ideia de utilizar ovos de galinha para decorar a casa, outra ideia é aproveitar as cascas para colocar plantas, ou mesmo guloseimas, como amendoins confeitados, pela casa. Fica bonito, criativo, e o melhor, a custo quase zero.


  • Raquel Santana


quarta-feira, 5 de abril de 2017

O vestido azul

Num bairro pobre de uma cidade distante, morava uma garotinha muito bonita. Ela freqüentava a escola local. Sua mãe não tinha muito cuidado e a criança quase sempre se apresentava suja. Suas roupas eram muito velhas e maltratadas. 

O professor ficou penalizado com a situação da menina. "como é que uma menina tão bonita, pode vir para a escola tão mal arrumada?" 

Separou algum dinheiro do seu salário e, embora com dificuldade, resolveu lhe comprar um vestido novo. Ela ficou linda no vestido azul. 

Quando a mãe viu a filha naquele lindo vestido azul, sentiu que era lamentável que sua filha, vestindo aquele traje novo, fosse tão suja para a escola. Por isso, passou a lhe dar banho todos os dias, pentear seus cabelos, cortar suas unhas. 

Quando acabou a semana, o pai falou: "mulher, você não acha uma vergonha que nossa filha, sendo tão bonita e bem arrumada, more em um lugar como este, caindo aos pedaços? 

Que tal você ajeitar a casa? Nas horas vagas, eu vou dar uma pintura nas paredes, consertar a cerca e plantar um jardim." 

Logo mais, a casa se destacava na pequena vila pela beleza das flores que enchiam o jardim, e o cuidado em todos os detalhes. 

Os vizinhos ficaram envergonhados por morar em barracos feios e resolveram também arrumar as suas casas, plantar flores, usar pintura e criatividade. 

Em pouco tempo, o bairro todo estava transformado. Um religioso, que acompanhava os esforços e as lutas daquela gente, pensou que eles bem mereciam um auxílio das autoridades. 

Foi ao prefeito expor suas idéias e saiu de lá com autorização para formar uma comissão para estudar os melhoramentos que seriam necessários ao bairro. 

A rua de barro e lama foi substituída por asfalto e calçadas de pedra. Os esgotos a céu aberto foram canalizados e o bairro ganhou ares de cidadania. 

E tudo começou com um vestido azul. Não era intenção daquele professor consertar toda a rua, nem criar um organismo que socorresse o bairro. 

Ele fez o que podia, deu a sua parte. Fez o primeiro movimento que acabou fazendo que outras pessoas se motivassem a lutar por melhorias. 

Será que cada um de nós está fazendo a sua parte no lugar em que vive? 

Por acaso somos daqueles que somente apontamos os buracos da rua, as crianças à solta sem escola e a violência do trânsito? 

Se somos, sigamos o exemplo do professor e lembremos que é difícil mudar o estado total das coisas. Que é difícil limpar toda a rua, mas é fácil varrer a nossa calçada. 

É difícil reconstruir um bairro mas é possível dar um vestido azul. 

*** 

Podemos fazer mais em favor da humanidade se nos dispusermos a isto. 

Estendamos a mão para alguém caído. Digamos uma palavra gentil para alguém. 

Presenteemos um amigo com uma flor. Façamos sorrir alguém triste. Abracemos com ternura um desafortunado. 

Há moedas de amor que valem mais do que os tesouros bancários, quando endereçadas no momento próprio e com bondade. 

Ninguém dispensa um amigo, nem um gesto de socorro. 

Disputemos a honra de ser construtores do mundo melhor e de uma sociedade mais feliz.
fonte: Livro Vida Feliz nº LXXX

terça-feira, 4 de abril de 2017

LER



As tecnologias do mundo moderno fizeram com que as pessoas deixassem a leitura de livros de lado, isso resultou em jovens cada vez mais desinteressados pelos livros, possuindo vocabulários cada vez mais pobres.

A leitura é algo crucial para a aprendizagem do ser humano, pois é através dela que podemos enriquecer nosso vocabulário, obter conhecimento, dinamizar o raciocínio e a interpretação. Muitas pessoas dizem não ter paciência para ler um livro, no entanto isso acontece por falta de hábito, pois se a leitura fosse um hábito rotineiro as pessoas saberiam apreciar uma boa obra literária, por exemplo.

Muitas coisas que aprendemos na escola são esquecidas com o tempo, pois não as praticamos, através da leitura rotineira tais conhecimentos se fixariam de forma a não serem esquecidos posteriormente. Dúvidas que temos ao escrever poderiam ser sanadas pelo hábito de ler, talvez nem as teríamos, pois a leitura torna nosso conhecimento mais amplo e diversificado.

Durante a leitura descobrimos um mundo novo, cheio de coisas desconhecidas.
O hábito de ler deve ser estimulado na infância, para que o indivíduo aprenda desde pequeno que ler é algo importante e prazeroso, assim com certeza ele será um adulto culto, dinâmico e perspicaz. Saber ler e compreender o que os outros dizem nos difere dos animais irracionais, pois comer, beber e dormir até eles sabem, é a leitura que proporciona a capacidade de interpretação.
Toda escola, particular ou pública, deve fornecer uma educação de qualidade incentivando a leitura, pois dessa forma a população se torna mais informada e crítica.
Fonte(s):Por Eliene Percilia
Equipe Brasil Escola

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Um olho no peixe e o outro no gato

Tô sempre ligado, eu acho.
Vivo com um olho no peixe e o outro no gato.

Só que esses versos não levariam este título, se você não o tivesse mencionado.
E se foi apenas um ditado, jogado.
Desculpe-me, levei para o sentido literário.

Até já fiz este poema, rimado.
Afinal, na minha imaginação alguém poderia ser um animal.
Não importa quem fosse o peixe ou gato.

Por isso, fiquei completamente atento a cada verso e seu significado
Fosse ele metafórico, irônico ou debochado.
Poderiam ter sido ambos, é fato.

Então tento o desembaraço
Arriscando para não ficar ainda mais atrapalhado
Escrevendo novos versos, tentando descosturá-los.

E se eu perceber que o gato está prestes a abocanhar o peixe, eu paro.
(claro, no sentido literal!)
Quero os dois vivos pros versos sempre ficarem inacabados.

O Laço e o Abraço, texto de Mário Quintana

Meu Deus! Como é engraçado! Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braços. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço. E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando... devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço. Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido. E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço. Ah! Então é assim o amor, a amizade. Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita. Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade. E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços. E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço. Então o amor e a amizade são isso... Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.Porque quando vira nó, já deixou de se um laço!

domingo, 2 de abril de 2017

2 de abril como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo.


Ivete Sangalo, Monica De San Galo - Completo

Anjo da guarda - Tribalistas

Escureceu, o sol baixou
Anjo da guarda cantarolou
Nana neném
Nana neném
Cacheadinho, anjinho é
De manhã sob o sol
Cada gota de orvalho
A secar, é suor
É suor de trabalho
Nana, neném
Nana, neném
Nana, neném
O estudante, o trabalhador
Sente deixar o cobertor
Pega a marmita
Ronca o motor
Leva a beleza
Que a vida é
De manhã sai da cama
Havaiana no pé
Apostila na mochila
Vira logo o café
Nana, neném
Nana, neném
Nana, neném

sábado, 11 de março de 2017

Mais um ano - Rubem Alves


A celebração de mais um ano de vida 
é a celebração de um desfazer, 

um tempo que deixou de ser, 
não mais existe.

Fósforo que foi riscado.

Nunca mais acenderá.
Daí a profunda sabedoria 

do ritual de soprar as velas em festa de aniversário.
Se uma vela acesa é símbolo de vida, 

uma vez apagada ela se torna símbolo de morte.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CARNAVAL

O carnaval me fascinou desde a mais tenra infância e ficava alucinada querendo participar dos blocos que se formavam, encantador no colorido e especial na animação de cada folião. Na minha cidade do Rio de Janeiro era a delícia dos meus tempos de garota. Jogava as serpentinas como eu observava os adultos fazerem, e ficava enfeitiçada pela direção imprevisível que elas tomavam. Tudo era fascinação nos áureos tempos em que ainda se podia dar ao luxo de brincar carnaval, sem temer a violência e as drogas. Elas existiam, mas de uma maneira mais amena e sem ostentação.

Em todos os carnavais de minha infância a fantasia era indumentária insubstituível, uma espécie de entrada obrigatória e evidente para qualquer reunião da criançada enlouquecida pelas brincadeiras informais e querendo seguir o palhaço que fazia a abertura da festa popular. E nos reuníamos primeiramente na Praça do Lido, sambando ao ritmo das músicas executadas.

Nunca esquecerei o leve e inebriante torpor que aqueles três dias me causavam com sua brilhante alegria. E olvidávamos até das mágoas infantis naquele compasso exuberante o que me faz recordar a época com imensa saudade. Os blocos que passavam faziam-me delirar e queria a qualquer custo entrar na roda especial dos carnavalescos.

Acho que minha terra infelizmente teve que perder a característica especial da alegria saudável para se preocupar em se defender ou ser prudente. E com isso se esvaiu a espontaneidade que brotava em cada gesto, tornando o carnaval o mistério de dias prazerosos e brilhantes.

Essa festa folclórica, tão importante porque faz a tradição do nosso povo, que inebria a quantos dela participam hoje está infelizmente com o peso da violência e da aids. Já não falo das escolas de samba que são protegidas e tem um lugar próprio para se exibirem. E um público cativo.

Refiro-me ao carnaval espontâneo que brota da alma das pessoas para o corpo necessitado de extravasamento e se refaz em fantasias ritmadas explodidas no compasso de cada melodia. Músicas melodiosas e vibrantes que entravam em nossos corações antes de acelerar o corpo fremente. E que esparziam o misterioso encantamento dessa comemoração jamais esquecida.

Carnaval que não precisa de prêmios para se revelar nascendo em cada pessoa, em cada brasileiro com força extraordinária, a encontrar uma fonte talvez de compensação numa vida sofrida e desamparada.

Os bailes de máscaras tinham uma atração ímpar pelo colorido multiforme, mistérios guardados que pareciam saltitar dentro de cada um. É como se pudessem realizar nessa personificação a representação da vida que queriam encarnar.

Lamento que a nossa festa popular tenha perdido a naturalidade que fazia com que as pessoas pudessem em movimentos uníssonos absorver o movimento que se desprendia barulhento e ao mesmo tempo harmonioso, transformando essas horas ininterruptas em momentos prazerosos, cujo cansaço dilacerava tudo que pudesse haver de energia negativa.

Só desejo que um dia quando a violência amainar talvez por um milagre, quando as pessoas vierem novamente a compreender o espírito do verdadeiro carnaval, possamos tê-lo sem as tensões que hoje percrustamos em cada folião empolgado, e sentir o encantamento dessa festa a um tempo misteriosa e fascinante.

Texto : Vânia Moreira Diniz

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O MEU CAFÉ

“Para alguns, uma pequena xícara contendo o néctar negro com espuma de ouro é um meio de sobrevivência”. (Tia Odacir)
Cinco horas da madrugada, levanta cambaleando, tropeçando nos móveis, quebrando o dedo mindinho no sofá da sala. É hora de ir para o trabalho. O seu tio Osmair já está lá há um bom tempo, passando o café: duas colheres de pó, quase um litro d’água, três colheres de açúcar. Fogo aceso aguardando as primeiras fervuras. Nunca deixa a água ficar muito tempo ao fogo. Se ficar, o café fica mais amaro.
As lembranças vão e vêm. Lembra-se da vovó Odair lá no sertão de Goiás, nos fins da década de oitenta, quando ainda era criança. Bodoque (estilingue) na mão, ir para o mato caçar passarinho. Banho no ribeirão, pular corda, chicotinho queimado e esconde-esconde. Sem contar as intermináveis manhãs soltando papagaio (pipa) lá no pasto, sem nenhuma moto ou fios de rede elétrica para atrapalhar. Até que viesse uma rajada de vento e pronto. O papel e linha engaranhavam naquelas árvores lindas que já não existem mais…
Café é estimulante, traz boas lembranças. Os políticos não podem nem pensar no café. Eles saíram bem cedo de fazenda em fazenda, não tinham garrafa térmica. Quando o candidato chegava, era café que não acabava mais, requentado. O que salvava a situação eram os biscoitinhos cozido, escaldado, sequinho, bolos de fubá e aquele de amendoim. Uma infinidade de iguarias no meio do sertão. Tinha até um bolo com nome engraçado: o tal de Mané Pelado (?) feito de mandioca (aipim). Passavam até a receita pra gente:
Bolo Mané Pelado
Ingredientes
900 gr de mandioca ralada fina
1 xícara de queijo Minas ralado
3 colheres (sopa) de margarina
2 colheres (sopa) de óleo de soja
4 ovos
2 xícaras de açúcar
1 vidro de leite de coco
1 xícara de coco ralado
Modo de Preparo
Esprema a mandioca para retirar um pouco da água e reserve. Bata os ovos inteiros até espumarem e reserve.
Misture o queijo, a manteiga e o óleo na mandioca. Na sequencia, adicione o açúcar e bata de novo. Adicione os ovos batidos, o leite de coco e o coco ralado e mexa bem até misturar todos os ingredientes.
Unte uma forma de bolo com margarina e enfarinhe. Asse o bolo até começar a dourar.
Lá o mato, tem todo tipo de receitas naqueles velhos cadernos das vovós. Agora não tem graça, está tudo na internet. Naquele tempo, aqueles livrinhos eram um tesouro e passavam de mão em mão.
Gostou? Envie sua colaboração, dicas e informações também. Ajude-nos a deixar nossa xícara mais completa.
Escrito por Kelly Stein em Cultura

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A dobradura dos lenços, reflexão - Prof. William Douglas


Há momentos em que o velho se revela em mim, e isto acontece cada vez mais. Antigamente, eu era o mais novo nas conversas e mesas... O que já não é tão comum. Já dei aula para juízes, professores, que passaram por mim há alguns anos e, agora, sentam-se comigo. Anoto: uma honra gratificante. E nem falo das palestras sobre concursos, onde cada vez mais recebo a "visita" de concurseiros já aprovados, que vão apenas levar o abraço e a notícia, sempre alvissareira, de seus merecidos sucessos. Sou amigo dos pais de vários profissionais com que lido. Bem, fui amigo primeiro dos pais, entende?
Em um relance mais difícil, recebo do oftalmologista novos bilhetes, com números mais altos, que me obrigam a fazer novas lentes. Curiosamente, quando começo a entender um pouco mais do mundo pelos olhos da emoção, os olhos físicos vão ficando mais frágeis.
Há alguns anos disse que possuía todas as respostas para o mundo no meu bolso, que só me faltava achar os botões da calça. Sigo tentando achar os botões, estou certo, mais uns duzentos ou trezentos anos, e eu finalmente entenderei tudo: o amor, os filhos, a alma humana, esse meu maior desafio.
Bem, se você pretendia ler algo objetivo sobre concursos, já viu que não é hoje, rs. Pois é, há textos motivacionais, outros técnicos, assuntos institucionais, há cartas de leitores respondidas e, vez ou outra, apenas reflexões entre amigos. Melhor seria se estivéssemos num bar, numa mesa alegre, serena, divertida, com algum vinho ou coisa parecida, além de alguns petiscos. A internet ainda chega lá, um dia. Por ora, só temos a conversa, mas isso já significa que partilhamos a mesma mesa, embora estejamos distantes geograficamente falando.
Sobre envelhecer, minha mulher, sete anos mais jovem, me lembra disso algumas vezes. Ela insiste em que eu abandone os lenços de tecido, trocando-os pelos de papel - muito mais práticos, higiênicos, modernos etc.
Curiosamente, a habilidade dos lenços e sua descartabilidade não me dizem coisa alguma. Explico. Minha mãe, já ida, não me deixava sair sem um lenço limpo, que em sua mente materna, julgava indispensável para um homem correto. Ela ensinou coisas mais sérias, como não sair de casa nem fazer refeição sem camisa, sobre ser honesto, tratar bem as pessoas e a não fechar as portas, pois o mundo é pequeno. Mas também tinha essas coisas pequenas, ou aparentemente pequenas, como achar que uma boa esposa devia tocar piano e eu tinha que ter sempre um lenço limpo no bolso. Havia, também, algumas coisas ruins, como não se cuidar e morrer de câncer.
Mas falarei apenas dos lenços. Eu não saía de casa sem um deles, e era um presente comum eu receber dela outra caixa. Logo, enquanto houver lenços de pano eu desprezarei os de papel, porque, de alguma forma muito louca, quando os tenho no bolso, tenho um pouco da mãe partida, e quando o assuo é como se os próprios dedos de minha mãe tocassem a ponta de meu nariz, quando me seco é como se a sua mão passasse novamente pela minha face.
E, não tenham dúvidas, qualquer homem daria seu braço direito para ser tocado, novamente, na face pela mãe já morta. Por isso mesmo, no livro A última carta do tenente, é que alerto: todos os que não estiverem com a mãe morta ou no CTI, corram, ainda é tempo!
Sim, eu visitei, liguei e conversei com ela menos do que podia e devia, e o concurso foi parte disso. Imaturo, jovem, como só uma mãe pode entender, cuidei mais da carreira do que era sensato. E, agora, o que posso fazer é consolar-me pelos acertos que de fato tive e alertar os amigos: liguem, visitem, passeiem, tolerem, riam, façam agrados e vontades. Eu os invejo, e invejarei cada dia, bem como alertarei a todos que estiverem com a mãe viva: corram, ainda é tempo!
Mas falemos dos lenços.
Um dia destes recebi da gaveta um lencinho pequeno, sensivelmente menor que de costume, um quadradinho. Protestei com a esposa por terem trocados meus lenços. A dimensão normal deles é de 10 x 10 cm, estes que peguei estavam com 7 x 7 cm.
Não é coisa de velho, é que abertos os primeiros se encaixam no meu rosto, já que não sou lá muito pequeno, e o novo modelo não era tão bom para cobrir meu nariz.
A esposa, paciente, alertou-me que era o mesmo lenço, que apenas tinha sido dobrado de forma diferente. Imediatamente, meu lado cientista e pesquisador foi fazer as conferências. Percebi que realmente ele era mais "gordinho" que o modelo tradicional, aquele que além de útil, me lembra à senhora minha mãe. Suspeitei, então, estar passando ao largo de uma verdade essencial e desejei bebê-la.
"Verdade essencial" é qualquer grande conclusão, aprendizado, lição ou frase que você pode assimilar na vida. Estão por aí, nos livros, filmes, peças de teatro, nas conversas com sábios, idosos e crianças, ou, por vezes, em situações vividas, ou escondidas numa paisagem no horizonte. Sou um caçador delas. O livro Como passar em Provas e Concursos , por exemplo, é uma coleção de verdades essenciais sobre como passar em provas e concursos; o Última carta , uma coleção de verdades essenciais sobre o sentido da vida; o Maratona, sobre as corridas da vida e da superação pessoal, e assim por diante.
Hoje, já concluí que depois de escrever para mim, aos outros, às editoras etc., finalmente escrevo aos meus filhos, desejando que eles - caso leiam meus livros - encontrem mais facilmente algumas das verdades essenciais que demorei e sofri muito para, enfim, apreender.
A verdade essencial escondida no lenço é que, me corrijam se estiver errado, conforme nos dobramos, podemos ser maiores ou menores. Nosso tamanho é influenciado pela forma como nos dobramos. E, curiosamente, daí também deriva um segundo enunciado filosofal: de um modo ou de outro, os lenços continuam tendo o mesmo tamanho quando se desdobram.
Começarei pela segunda observação: todos os homens têm valor igual. Como aprendi na Faculdade de Filosofia, UFRJ, o homem que souber todas as coisas não saberá o que é ser ignorante. O homem repleto de bens e propriedades não tem a tranqüilidade do pescador humilde; o grande executivo pode não ter a vida pausada do porteiro. Não existe nada de graça: todas as coisas possuem seu preço e seu respectivo ônus.
No nosso campo, o servidor público não poderá ter seu iate, mas, em compensação, tem um horário de trabalho definido e uma qualidade de vida irrealizável para a maior parte dos empresários e executivos. Eu reduzi minhas palestras à metade para ficar com meus filhos, reduzindo a velocidade de expansão profissional em troca de uma outra expansão, não mensurável pelas mesmas vias. São apenas escolhas. Durante muito tempo viajei e curti menos os dias em trocas de conhecimento para hoje, aprovado nos concursos, fazer estas coisas em outro patamar de vida. São apenas escolhas.
Mas, no final, todos os homens valem a mesma coisa. Como diz a Declaração Universal dos Direitos do Homem, todos nascemos iguais em dignidade e direitos, e devemos nos comportar uns em relação aos outros com espírito de fraternidade.
O sábio não pode valer mais do que o tolo, nem o abastado mais que o miserável. O bondoso não é, e isso me assusta, mais importante que o canalha, e suspeito que todos tenhamos mesmo o bondoso e o canalha, o malvado e o filantropo, escondidos em nossas carnes.
Mas falemos dos lenços.
Há alguns homens que não se dobram aos estudos, não se dobram à disciplina, não se dobram aos movimentos necessários para vencer os próprios obstáculos. São pessoas que serão pequenas, ou, melhor, menores do que poderiam.
Mas quem se dobra mais não fica menor? Não. Depende do ângulo que você olha: o mais dobrado, visto de lado, é mais alto. A questão não é se dobrar ou não, mas a forma como se dobra e o ângulo de visão escolhido.
Sempre existirão obstáculos entre um homem e seu sonho. Mas, como já foi dito: "obstáculos são aquelas coisas assustadoras que você vê quando deixa de focar os seus sonhos". Algumas pessoas se dobram, se curvam, mesmo para pegar o que desejam. Outras não.
Lembro de minha adolescência e primeira juventude, quando era ridicularizado pelos que me consideravam bobo e tolo de estudar tanto, de acreditar tanto, de perder tanto. Eu apenas estava me dobrando como um lenço que desejava ser grande. Dobrar-se humildemente, dobrar-se com paciência e perseverança, dobrar-se ao som do sonho. E a vida e o tempo me recompensaram pelos meus esforços. A vida sempre recompensa.
Não me dobrei tanto quanto devia aos cuidados com a mãe, nem com a saúde, e fiquei menor, tendo que pagar um preço sobre isso. Felizmente, cuidei alguma coisa de minha genitora, o que me consola, e estou vivo ainda, o que me permite recuperar a saúde que me for possível.
Há quem se dobre e faça reverência à preguiça, à omissão, à apatia, ao medo do fracasso ou aos outros temores naturais de qualquer empreitada, e ficam menores, menores mesmo, comparados ao que poderiam. Como dizia Renato Russo, muitos temores nascem do cansaço ou da solidão. Mas se o cansaço é de estudar, e a solidão é por estar estudando, daí também nascem plantas boas: conhecimento, competência, aprovação, sucesso.
Volto ao tema: assim como todos valemos intrinsecamente por sermos humanos, assim como sempre temos escolhas enquanto estamos respirando, todos nós, homens e lenços, nos dobramos. Não há como não nos dobrarmos. Como disse o filósofo Rocky Balboa, a quem, junto com Ferris Bueller, Forrest Gump e Rod Tidwell, homenageio em um de meus livros, o fato é que "ninguém bate mais forte do que a vida" . É vero . Ninguém bate mais forte do que ela... E, ao mesmo tempo, ela é tudo o que nós temos, e é bonita. Um espetáculo sem ensaio, irresistível e que estréia todos os dias.
Logo, já que a vida é irrecusável, você terá que se dobrar como qualquer lenço. Mas pode escolher a que se dobrar, como e quanto. E dessas suas decisões sairá desenhado e definido o seu tamanho. E, sempre que quiser, você poderá se desdobrar e fazer um outro desenho.
A vida é um lenço, flexível, que você tem no seu bolso.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Oração do Ginete - Xirú Antunes



Quando a alma de um ginete em oração
Nesta xucra devoção vai enfrentar seu destino
Eu tiro então meu chapéu pra "Senhora Aparecida"
Que é a protetora da vida e minha mãe lá do céu

Que me proteja a senhora neste ofício de peão
Que o limite seja o chão num escarcéu barbaresco
Terra, mundo e algum retovo e se carrego um pecado
Deus me dê um desbocado pois vim alegrar meu povo

E quando numa toada, dessas que um taura se plancha
De um maula pedindo cancha se batendo nos meus ferros
Até me perco na rima nesse bailado de morte
E um índio brinca co'a sorte se um louco vier por cima

Então "Senhora dos Campos", eu te peço tua benção
Cuide da vida de um peão pois eu não quero mais nada
Somente esse meu anseio de montar noutro rodeio
Pra uma nova gineteada.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Trocando pão e ideias



Há uma parábola chinesa que diz:



Dois homens caminham por uma estrada em sentido contrário, cada um  traz consigo um pão. Em determinado ponto os dois se encontram e trocam os pães... Depois, cada um segue, levando um pão.

Em outra estrada, dois homens também caminham em sentido contrário, e cada um deles traz consigo uma ideia. Em determinado ponto eles se  encontram e trocam as ideias... Depois, cada um segue seu caminho, levando agora duas ideias.

É assim: quando trocamos bens materiais, não acrescentamos muito ao nosso patrimônio, mas quando trocamos experiências, transformamos nossa mente numa ferramenta fecunda, capaz de proporcionar-nos mais sabedoria, um patrimônio intangível.



Autor: Desconhecido