terça-feira, 18 de junho de 2013

PÃO A PESO




Para o pobre municipe indefeso
Foi sempre um logro o pão de cada dia,
Deante da indifferença e do desprezo
Da edilidade surda-muda e fria!

Que ella perca, afinal, o antigo vezo
E, dando mostras de sabedoria,
Ordene que se venda o pão a peso,
Ponha balança em cada padaria.

Só assim Zé povinho proletario,
Sem temor de, qual pillula, engulil-o,
Poderá mastigar seu panis diario.

Mas, porque fique o povo mais tranquillo,
Dê-se á lei additivo compulsorio
Que em mil grammas mantenha cada kilo...




FONTE DA CARIOCA
D.XIQUOTE
 1922

segunda-feira, 17 de junho de 2013

PIANO DE BAIRRO

Na rua sossegada onde moro, - á tardinha,
quando em sombras o céu lentamente escurece,
- um piano solitário, em surdina, - parece
acompanhar ao longe a tarde que definha...

Nessa hora, em que de manso a noite se avizinha,
seus acordes pelo ar têm murmúrios de prece...
-Ah! quem não traz como eu também, na alma sozinha,
um piano evocativo que nos entristece?

Há sempre um velho piano de bairro, esquecido
na memória da gente, - e que nas tardes mansas
sonoriza visões de outrora ao nosso ouvido.

Seus monótonos sons, seus estudos sem côr,
repetem no teclado branco das lembranças
o inconcluso prelúdio de um longínquo amor!



                             J. G DE ARAUJO JORGE
                               
ETERNO MOTIVO