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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Árvore


"Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.

Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de

sol, de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo

mais do que os padres lhes ensinavam no internato.

Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.

Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.

E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida

no tronco das árvores só serve pra poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.

Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,

envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros

E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.

Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore

porque fez amizade com muitas borboletas".


Manoel de Barros BARROS, M. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

...o melhor de mim...com o melhor do outro!



SILVIA HELENA CALCAGNO

sábado, 27 de junho de 2015

'CUANDO SEA GRANDE'

No quiero quejarme de oreja en oreja 
Fijarme si quien me aventaja se aleja 
Negar el reflejo que dejo en mi espejo 
Ni alojar el rencor entre ceja y ceja 

No quiero guardar tantos secretos 

Ni estar enfrentado en un cuadro grotesco 
Como los Montesco y los Capuleto 
No quiero a tu edad quedar obsoleto 

Ni perder el vigor ni decir sin rigor 

Que todo tiempo pasado siempre fue mejor 
Ni llegar a mi casa ofuscado y molesto 
No quiero estar cansado de llevarme puesto 

Y aunque esta verdad pueda doler, 

tengo que decirlo, sin complacer 
Pero si ofendo, pido perdón 
Cuando sea grande, quiero ser como vos 

No quiero cometer tus mismos errores 

Ni creer que todos son estafadores 
No quiero manejar tus mismos valores 
Ni que cada día sea igual a los anteriores 

No quiero no poder controlar mis enojos 

Ni cargar esa tristeza en los ojos 
Mojados y rojos, ajados y flojos 
No quiero resignarme a ser mis despojos 

Ni echar con vehemencia la culpa a los demás 

de lo que es mi incumbencia y responsabilidad 
Ni que me de por probar en alguna idiotez 
lo que no pude hacer cuando tuve 23 

Y aunque esta verdad pueda doler, 

tengo que decirlo, sin complacer 
Pero si ofendo, pido perdón 
Cuando sea grande, no quiero ser como vos 

No quiero que ya nada me provoque placer 

Ni que cuando el dolor me toque odie el ayer 
Ni mirar fotos viejas y ponerme a llorar 
O que nombren a alguien y empezar a temblar. 

No quiero llevar esa vida mal trecha 

con sospechas de dolo y la ilusión desecha 
Ni lanzar pestes creyéndome Apolo 
Ni que me molesten, una fecha estar solo. 

Y aunque esto se preste a mal interpretar 

No quiero que crean que es solo por criticar. 
Y espero que tan solo sea una declaración 
Porque ni yo se si quiero que quieras ser como yo 

Y aunque esta verdad pueda doler, 

tengo que decirlo, sin complacer. 
Pero si ofendo, pido perdón. 
Cuando sea grande, no quiero ser como vos 
Y aunque esta verdad pueda doler, 
tengo que decirlo, sin complacer. 
Pero si ofendo, pido perdón. 
Cuando sea grande…


El Cuarteto de Nos

sábado, 23 de maio de 2015

DUAS VEZES NÃO SE FAZ

Não se faz o mundo duas vezes:
Duas vezes a Lua.
Duas vezes o Mar.

Não se faz duas vezes;

A inclinação do Cruzeiro do Sul,
A rotação diversas dos Astros
A luz solar riscando madrugadas,
Crepúsculos incendiados
Para o sono dos pássaros.

Duas vezes não se fará:

O rumor das ondas
Por cima de caranguejos translúcidos.
Chuvas tropicais
Resvalando em rios caudalosos,
Pororocas noturnas,
Revolvendo assombrações
Mas, se fará:
Negras espumas de óleo subterrâneos
Nuvens asfixiantes em horas imprevisíveis,
Mortos mares naufragados em detritos,
Desertos de verdes calcinados,
Terra desfigurada de pólo a pólo.
Terra inútil
Túmulo rejeitado
De fracasso humano.


Poema de Hermano José

terça-feira, 19 de maio de 2015



A máquina do mundo




E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


sábado, 16 de maio de 2015


ESTAFETA SEM RUMO

Sou Andarilho Peregrino
Trem Sem Trilho
Gramíneas Sem Milho
Maquinista Valdevino

Sou Andarilho Peregrino
Com Alma De Aventureiro
Espírito Forasteiro
E Sonho De Menino

Sou Andarilho Peregrino
Cego Romeiro Errante
Perdido De Mim Clandestino
Fugido Da Vida Viajante

Sou Andarilho Peregrino
Garimpeiro De Ilusão
Na Gruta Escura Do Destino
Passarinho Sem Alçapão

Sou Andarilho Peregrino
Destemido Caçador
Adulto Pequenino
Semente De Lavrador

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cozinha Campeira: Café De Chaleira

Cozinha Campeira: Café De Chaleira: Barbaridade, quem não lembra dos cafés preparados no fogo de chão, no fogão campeiro. Sabor inigualável, preservado por muitos até hoje, par...

sexta-feira, 17 de abril de 2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Meu inteiro Sim a uma vida repleta de...


Leveza. O riso fácil, o entendimento fluído, a sensação de estar sempre em casa independente de onde quer que eu esteja.

Consciência. A realização de minha iluminada natureza, a sabedoria que permeia o olhar e o que é visto. 

Suavidade. A delicadeza nas palavras, nos atos e nos silêncios. A suave amorosidade dos meus queridos.

Aroma. Uma vida com aroma de pão recém saído do forno, de chá da tarde em uma mesa rodeada por crianças com cheirinho de banho tomado. 

Amigos. Uma comunidade de seres borbulhantes e luminosos sempre presentes, sempre prontos a ver o melhor em todos os seres e em todas as experiências. 

Luz. Os contos do pôr do Sol, a melodia do amanhecer e a poesia da Lua: inteiros nas muitas janelas e portas da minha casa. Uma vida iluminada por minha unidade com o Todo em mim e nos seres ao meu redor.

Amor. O infinito e pleno amor que Sou, que vivo e cuido, sempre e a cada passo. 

ॐ  Paz ॐ 
Bárbara Petri

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cheirinho a Madressilva

José Luís Gordo-Mário Raínho / 

Fontes Rocha
Repertório de Maria da Fá

Ai Madressilva perfumando os montes
Ao povo não contes quem te perfumou
Foi água fresca da velha nascente
A cantar contente, que por ti passou

Ai Madressilva, pézinho silvestre
Como tu cresceste nos jardins da serra
Ai Madressilva no muro da esperança
Ai madre criança a enfeitar a terra

Ai Madressilva, menina dos muros
Dos cheiros mais puros, singelos, sadios
Ai Madressilva, ai madre que eu canto
Vestida de encanto á beira dos rios

Ai Madressilva dos meus namorados
Dos bailes mandados lá nas romarias
Ai Madressilva, quem te deu o cheiro
Tão casamenteira p’ra tantas Marias



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Meu aluno, meu espelho


  Meu aluno, meu espelho Gosto de coisas que brilham, pois carregam mistérios, prendem a atenção, acalmam e ao mesmo tempo despertam. Algo mágico que reluz ao olhar, que nunca vê o fim, reflete. Então, muitas vezes me pego conversando em frente ou com o espelho.
   Tanto é o prazer, que revejo rapidamente momentos vividos, bem ou malsucedidos. As imagens são entrecortadas por sons e vozes. Encontro perguntas e respostas e me vejo.
   Há muito sou professora de alunos que, embora sejam colocados em situações de desvantagem, são os responsáveis pelo resgate de momentos de verdade. Fizeram-me reconhecer como criadora de significados, sentir a relevância da interlocução para que esse significado seja construído e as relações harmoniosas garantam a sua compreensão. Percebem-se a si mesmos e retomam várias informações que foram acumuladas ao longo da vida, uma história de vida.
  Recordo uma experiência com duas pessoas cujo propósito era ler. Durante nossa convivência, presenciei em seus rostos o largo sorriso, aquele que franze a cara toda, no qual os olhos, apesar de espremidos, brilham. Em que a boca se abre num eco gostoso. Presenciei em seus rostos o choro carregado de emoção, que franze a testa, que vem do fundo, numa respiração ofegante impedindo a finalização da palavra.
  Quando conheci “Ouro”, ele estava concluindo o Ensino Médio. Não sabia sequer segurar corretamente o lápis, mal podia discorrer sobre a folha. Ele era duro para escrever, duro para andar e duro para falar. Um vulto identificado pelas pessoas como esquisito. Sempre cabisbaixo, passava pelos corredores como se fosse um boneco de cordas. Não fitava o olhar, e se falava desandava em muitos assuntos ao mesmo tempo — sem coesão, sem coerência, com erros de linguagem, trocas. Percebi que se tratava de um desabafo por ficar tanto tempo imóvel, dormindo sobre a mochila. Chegou a mim sem vontades.
   “Prata” ia à escola com interesse voltado para a merenda, comia três pratos “disco voador”. Era a atração da comunidade escolar. Nas maçãs do seu rosto formavam-se profundos sulcos, olhos estatelados e fundos, ausência de contato, dando a ideia de olhar através de. Suas mãos sujas entregavam a função que exercia. Sempre era encontrado nos arredores da escola recolhendo materiais recicláveis ou ajudando a limpar as barracas no fim de feira. Certo dia alguém o convidou a ser aluno. Passava o tempo preenchendo uma  olha com pauzinhos e bolinhas. Quando chegou a mim, dizia –“Craro que sei escrever”, e mostrava, I O I O. Admitia não saber ler.
   Na verdade não nomeava, não descrevia paisagens ou contava histórias, sequer sequenciava-as. A fala era de difícil compreensão – lembra das maçãs do rosto? Assim como Ouro, não lhe deram oportunidade, na idade certa, de se expressar, dialogar, se movimentar; apenas ouvir.
   Uma das professoras de Prata me procurou, sugerindo trocar Prata por dois outros metais, que além de mais em conta, renderiam mais. Diante dessa oferta me tornei surda, cega, imóvel. Encorajada, aumentei os contatos com Prata.
  Depois de muitas retomadas, trabalhei com áreas relacionadas, novas estratégias, como folhear livros, ler figuras, ler pessoas, muito diálogo, sentir emoções. Vi Prata dar novos significados aos pauzinhos e bolinhas. Vi Ouro chorar ao juntar as letras da palavra AMIGO. Dei-lhe forças para conseguir concluí-la, e quanta foi a emoção minha e dele diante da descoberta. Vi Prata pegar a pasta com seu nome em meio a tantos outros. Fitou-me nos olhos, pegou uma folha e escreveu, LUCIANO, em seguida pronunciou LU CI A NO gaguejando, num tom bem alto completou: “Pensam que sou burro. Olha aqui, este é meu nome”.
  Vi Ouro no corredor da escola cumprimentando um amigo “Aí, beleza?” Com aquele encontro de soquinhos, positivo e aperto de mãos. Virou-se para mim e disse “Te contei que na aula da professora falei sobre gases que vi na oficina do meu tio? Que hoje escrevi meu nome na folha da professora?”
  Para Luciano e para Ouro a jornada continua, são pessoas que brilham.
 
E para todos nós resta saber se já aprendemos a escrever nosso nome — Professor.


Eduarda Maria Normanton Ladeira 53 anos Jundiaí, SP 1o lugar categoria 5

Cuido, logo existo - A Gramática do cuidado
Meu aluno. meu espelho - P.87