quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"Borboletas da Oficina Reconstruindo"




Em cada envelope esta um livro infantil, destinado aos leitores de nossa cidade, encontre por ai, em seu caminho e entregue em mãos a uma criança, fazendo assim parte dessa iniciativa e contribuindo com o plantio de quem acredita que boas ações surge em qualquer lugar e momento!
SILVIA HELENA CALCAGNO
IDEALIZADORA DO PROJETO OFICINA RECONSTRUINDO


Estamos chegando ao fim do ano e num momento de mais incentivo ao consumo, mas entendo que é preciso sobreviver num sistema que persiste em ser caro, não custa pouco nosso dia a dia, sabemos como chefes de família que a batalha é diária na corrida ao básico, mas é preciso olhar em volta para não nos tornarmos sistematizados pela rotina da busca e pelo ganha pão.Que nesse ano que termina possamos adiantar os pensamentos bons e a fé que nos rege, pois acho difícil que pessoas sem crenças consigam permanecer intactos por tantas provações, entendo que a prova dos dez da vida é sim dentro de nossa casa, com quem vivemos, compartilhamos o dia e a noite, Que sejamos perseverantes na luta para se viver bem e melhor, que os sonhos sejam do tamanho do "possível", pois a felicidade maior é o tempo que temos no "agora".



SILVIA HELENA CALCAGNO

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ATOS DE POESIA


Desfaça em mim o gosto que eu não gosto
Me ajude a acreditar no que eu aposto
Habite onde cresce o meu vazio
Me aponte o limiar que eu distancio
Definhe o que me dói e eu não ligo
Me ensine a escapar do meu perigo
Acenda nos meus olhos o que eu cego
Conduza às minhas mãos o que eu renego
Devolva o que eu mais creio e não edifico
Me ensine o que eu mais sei e não pratico
Arraste até o abismo os meus tormentos
Retire lá de dentro os meus alentos
Sublinhe a compreensão nos meus escritos
Ressoe a suavidade nos meus ditos
Preencha o meu viver de compaixão
Me livre de matar minha redenção
Desarme as armadilhas que eu mantenho
Preserve o bem querer que eu ainda tenho
Não deixe que eu esqueça o que lhe peço
Me aceite como eu sou e me confesso

(Yrto Mourão/Atos de Poesia)

domingo, 9 de novembro de 2014

BALANÇO NA VIDA

Será que somos da antiga
Uns alucinados visionários
Uns impetuosos estressados
Uns aloprados desmiolados
Uns dos que sabem aonde ir?
Será que somos...
Não dos mais lembrados
Não dos mais queridos
Um pouco mudos calados
Uns falantes acotovelados?
Será que somos...
Apenas um puro engano
Donos de capciosas pinóias
Donos de opressivas levezas
Seres feitos só de durezas?
Será que somos...
Um pouco inspirados
Um pouco agressivos
Um pouco sozinhos
Um pouco ciganos?
Será que somos...
Um pouco vespertinos
Um pouco notívagos
Um pouco acanhados
Só um pouco desleixados?
Será que somos...
Apenas muito vagos
Apenas uns puristas
Não muito criticos
Nem um pouco pacificos?
Será que somos...
Apenas uns adultos precoces
Umas crianças enrustidas
Só uns jovens assustados
Ou um pouco de tudo isso?
Será que possuímos...
Só sonhos que impossíveis
Pouca garra para consegui-los
Só uns planos impraticáveis
Ou só pesadelos plausíveis?
Será que somos..
Alguém em busca de si
Alguém perdido e só
Alguém cheio de brios
Alguém em tom febril?
Será que temos...
Uma carência adormecida
Uma decepção escondida
Uma felicidade incontida
Uma alegria entristecida?
Será que somos...
Talvez só uns insensatos
Uns por demais confusos
Uns ignóbeis intratáveis
Quem sabe só uns desolados?
Será...
Talvez só uns inconstantes
Talvez só uns fios cortantes
Talvez só uns tinos errantes
Quem sabe só uns pedantes?
Será que somos...
Realistas ou puristas pensantes
Ou daqueles que nunca pensam
Ou só dos que só fogem da cena
Os dos que estão sempre presentes?
Somos dos que...
Uns que só com ferro ferem
Uns do que com palavra atraem
Uns do que com gestos isolam
Uns que só com os olhos aliviam?
Será que somos...
Dos que escutam e não ouvem
Dos que falam o que não sentem
Dos que só calam e consentem
Dos que sempre dizem e não mentem?
Será que somos...
Seres ditos realizados
Seres batidos e lesados
Seres sábios, mas amorfos
Seres só em desconfortos?
Será que estamos mais para...
Só grandes amigos infantes
Só muitos cavaleiros andantes
Uma fila de moinhos paralisantes
Um bando de duques reinantes?
Será que queremos mais...
A paz que acalenta
A dor que arrebenta
A cura que apazigua
A verdade que alimenta?
Será que somos...
Grandes amigos do peito
Só umas pessoas sem jeito
Só mais uns com os outros
Ou dos que fazem a diferença?
Para onde estaremos indo...
Para um deserto de aflição
Para um campo só florido
Para um campo minado
Para um paraíso esperado?
O que queremos...
Uma paz que aqui jaz
Uma calma somente
Um amor não carente
Um amigo presente?
O que diremos nós..
Tenha calma e avante
Vá e arrume o presente
Nunca largue do manche
Nunca desvie do horizonte?
Seremos resultado...
Só do melhor que cruzamos
Só dos males que lembramos
Só dos bens que conquistamos
Ou por tudo isto agradeçamos?

Roselis von Sass 

sábado, 8 de novembro de 2014

AREIA BRANCA, A INFÂNCIA


A cidade adormecida
no coração do poeta,
entre pregões matinais,
subitamente desperta.
Por trás da Serra Vermelha,
nasce a manhã, nas levadas,
na solidão das salinas,
nas águas envenenadas.
Maçaricos alçam vôo,
nas várzeas de pirrixiu.
Pescadores solitários
Pescam o silêncio do rio.
Num bosque de mata-pasto,
Atrás de Amaro Besouro,
Desabrocha o fumo-bom,
Em finos cálices de ouro.
Calafates calafetam
velhos barcos irreais.
Moinhos movem os ventos
nas tardes do nunca mais.
O sol se pondo na barra,
entre mangues e canoas,
põe rebrilhos de vidrilhos
nas marolas das gamboas.
A noite cai. Cães vadios
ladram na rua, à distância.
Deslizam sombras esquivas
nas esquinas da lembrança.
Todos os que se mudaram
para o outro lado da vida
e dormem, no cemitério
da cidade adormecida.
Vêm a mim, me cumprimentam,
me comovo ao recebê-los.
Baila uma fina poeira,
em torno de seus cabelos.
Converso com Pum-na-Guerra,
Fumo-bom e Baranhaca.
Abraço Maria-mole,
Ciço Cabelo-de-vaca.
Passo no Canal do Mangue,
vou à Fuzarca, à Favela.
Na Rua da Frente há moças
Debruçadas nas janelas.
D. Adelina me argüi
na tabuada, o ABC.
Começa tudo de novo,
pela estrada do aprender.
Ouço as valsas da Água-doce,
nas tardes de antigamente.
Entre bois e pastoris,
sou menino novamente.
As ruas se embandeiraram,
há lanternas pelas portas,
São João acorda, entre o riso
de pessoas que estão mortas.
Os pés do poeta vão
nessas ruas do sem-fim.
O tempo não conta mais,
partiu-se, dentro de mim.
Nesse burgo de lembranças,
guardado pela memória,
minha vida se inicia,
recomeça minha história.
                                Deífilo Gurgel
Do livro: "A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX"  - FUNCART/Imago, org. Assis Brasil, 1998, RJ.