quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011




ETERNA RONDA
Adair de Freitas
Tamanho da fonte
A poeira da estrada, o berro do gado, o grito do homem.
O som do cincerro da égua madrinha,
o ruído do freio mascando na boca,
do flete cansado por léguas de estrada.
É a tropa que passa na frente dos olhos do velho xiru.
Mas ele só vê.

Os outros campeiros proseando na frente do velho galpão,
ao menos entendem porque o velho taura, de olhos perdidos
na estrada real,
mateando solito, a cuia pequena nas mãos enrugadas,
parece que fita no verde do mate, bebendo distâncias
de campos imensos que amou por igual.

Os outros não vêem, mas ele sim, vê!
Contempla extasiado, o azul das lagoas,
que servem de espelho pra lua faceira.
O gado pastando no rumo às aguadas;
o vento brincando nas folhas caídas,
dizendo ao campeiro que a chuva já vem.
Retoço de potros que agitam manadas.
A terra molhada de chuva miúda, que deixa nos ares
um cheiro que entra pra dentro da gente que é terra também.
Mas ele só vê.

Na mente cansada do velho tropeiro, se formam imagens
de um tempo, que o tempo implacável matou.
O tempo! Esse maula proscrito que zomba da vida.
Que vem pisoteando no rastro dos velhos,
e passa por nós no encalço dos novos.
Porém no seu rastro ninguém vai pisar.
Esse maula que muda o perfil das pessoas,
transforma paisagens e nunca se cansa.
Roubou do tropeiro que hoje lhes falo
o entono, a saúde, gastou-lhe a matéria,
matou-lhe a esperança.
E como se tudo o que fez, não bastasse,
tirou dos seus olhos a força de ver.
Porém que ironia! O taura sorri!
O tempo maleva, sequer se deu conta,
que ao velho tropeiro lhe fez um favor.
Seus olhos que viram do alto dos montes
sem fim de horizontes tão puros e iguais,
por certo que iriam chorar a desgraça
de ver só fumaça que chamam progresso.
Que bom que seus olhos já não vêem mais.
Seus olhos que viram os campos brotando
e sangas cantando, acordar madrugadas.
Que bom que não vêem mais nada seus olhos.
Nas sangas, o espólio das grandes barragens,
e as toscas imagens das terras lavradas.

Seus olhos que um dia brilharam de amor,
escravos da flor que é mulher, bem-querer,
não vêem esta imagem que ao tempo se molda
pois muita chinoca, só é porque é moda
e ao menos um mate, nos sabe fazer.
E as tropas enormes, boiada taluda,
cavalos de muda rachando de gordos.
É bom que não veja do tempo o estrago
seus filhos e netos, em cavalos magros,
tropeando o boi lerdo, de um mísero soldo.
E as noites de ronda! Que noites aquelas!
Milhões de janelas abertas pra o mundo.
O brilho do pasto molhado de orvalho,
os olhos do ronda buscando agasalho,
nos olhos do gado de olhar tão profundo.
Por isso que vê-lo tropear pensamentos,
levando nos tentos um mundo que é seu,
eu fico pensando. Se vejo e sou triste,
se é noite em teus olhos, mas vês, o que vistes,
por certo que és bem mais feliz, do que eu!

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