quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Meu aluno, meu espelho


  Meu aluno, meu espelho Gosto de coisas que brilham, pois carregam mistérios, prendem a atenção, acalmam e ao mesmo tempo despertam. Algo mágico que reluz ao olhar, que nunca vê o fim, reflete. Então, muitas vezes me pego conversando em frente ou com o espelho.
   Tanto é o prazer, que revejo rapidamente momentos vividos, bem ou malsucedidos. As imagens são entrecortadas por sons e vozes. Encontro perguntas e respostas e me vejo.
   Há muito sou professora de alunos que, embora sejam colocados em situações de desvantagem, são os responsáveis pelo resgate de momentos de verdade. Fizeram-me reconhecer como criadora de significados, sentir a relevância da interlocução para que esse significado seja construído e as relações harmoniosas garantam a sua compreensão. Percebem-se a si mesmos e retomam várias informações que foram acumuladas ao longo da vida, uma história de vida.
  Recordo uma experiência com duas pessoas cujo propósito era ler. Durante nossa convivência, presenciei em seus rostos o largo sorriso, aquele que franze a cara toda, no qual os olhos, apesar de espremidos, brilham. Em que a boca se abre num eco gostoso. Presenciei em seus rostos o choro carregado de emoção, que franze a testa, que vem do fundo, numa respiração ofegante impedindo a finalização da palavra.
  Quando conheci “Ouro”, ele estava concluindo o Ensino Médio. Não sabia sequer segurar corretamente o lápis, mal podia discorrer sobre a folha. Ele era duro para escrever, duro para andar e duro para falar. Um vulto identificado pelas pessoas como esquisito. Sempre cabisbaixo, passava pelos corredores como se fosse um boneco de cordas. Não fitava o olhar, e se falava desandava em muitos assuntos ao mesmo tempo — sem coesão, sem coerência, com erros de linguagem, trocas. Percebi que se tratava de um desabafo por ficar tanto tempo imóvel, dormindo sobre a mochila. Chegou a mim sem vontades.
   “Prata” ia à escola com interesse voltado para a merenda, comia três pratos “disco voador”. Era a atração da comunidade escolar. Nas maçãs do seu rosto formavam-se profundos sulcos, olhos estatelados e fundos, ausência de contato, dando a ideia de olhar através de. Suas mãos sujas entregavam a função que exercia. Sempre era encontrado nos arredores da escola recolhendo materiais recicláveis ou ajudando a limpar as barracas no fim de feira. Certo dia alguém o convidou a ser aluno. Passava o tempo preenchendo uma  olha com pauzinhos e bolinhas. Quando chegou a mim, dizia –“Craro que sei escrever”, e mostrava, I O I O. Admitia não saber ler.
   Na verdade não nomeava, não descrevia paisagens ou contava histórias, sequer sequenciava-as. A fala era de difícil compreensão – lembra das maçãs do rosto? Assim como Ouro, não lhe deram oportunidade, na idade certa, de se expressar, dialogar, se movimentar; apenas ouvir.
   Uma das professoras de Prata me procurou, sugerindo trocar Prata por dois outros metais, que além de mais em conta, renderiam mais. Diante dessa oferta me tornei surda, cega, imóvel. Encorajada, aumentei os contatos com Prata.
  Depois de muitas retomadas, trabalhei com áreas relacionadas, novas estratégias, como folhear livros, ler figuras, ler pessoas, muito diálogo, sentir emoções. Vi Prata dar novos significados aos pauzinhos e bolinhas. Vi Ouro chorar ao juntar as letras da palavra AMIGO. Dei-lhe forças para conseguir concluí-la, e quanta foi a emoção minha e dele diante da descoberta. Vi Prata pegar a pasta com seu nome em meio a tantos outros. Fitou-me nos olhos, pegou uma folha e escreveu, LUCIANO, em seguida pronunciou LU CI A NO gaguejando, num tom bem alto completou: “Pensam que sou burro. Olha aqui, este é meu nome”.
  Vi Ouro no corredor da escola cumprimentando um amigo “Aí, beleza?” Com aquele encontro de soquinhos, positivo e aperto de mãos. Virou-se para mim e disse “Te contei que na aula da professora falei sobre gases que vi na oficina do meu tio? Que hoje escrevi meu nome na folha da professora?”
  Para Luciano e para Ouro a jornada continua, são pessoas que brilham.
 
E para todos nós resta saber se já aprendemos a escrever nosso nome — Professor.


Eduarda Maria Normanton Ladeira 53 anos Jundiaí, SP 1o lugar categoria 5

Cuido, logo existo - A Gramática do cuidado
Meu aluno. meu espelho - P.87

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