quinta-feira, 4 de maio de 2017

O clube dos teimosos


 

Componho esta crônicas para os habitantes de minha rua, para certas pessoas que residem na inconcreta cidade de Santaclara, para jovens, volúveis deusas que um dia me enfermaram de paixão. É pois com regular dose de espanto que descubro que tenho um leitor em Itaquaquecetuba, São Paulo. É de lá que me conta esse dr. N., e eu não vejo por que duvidar, que é engenheiro de profissão, tem 54 anos, uma esposa gaúcha e três filhas. Informa a seguir o dr. N. que dirige uma construtora que os negócios vão mais bem do que mal, que é vice-presidente de uma ONG ecológica, que nas férias acampa na Serra da Mantiqueira. Quem sou eu para supor que esses dados biográficos, quase cadastrais, são incorretos? Mas aí o dr. N. comete uma incorreção. O dr. N. me diz que entrou sem querer na vida errada. Que quando estava no científico ganhou um concurso literário, que na faculdade colaborou na revista do centro acadêmico. E que agora, "especialmente nos intermináveis fins de semana", fica pensando que, em vez de empresário, poderia ter sido escritor. O que é que eu acho?

Eu não acho nada, dr. N. Os cronistas são seres inconfiáveis, tratam no geral de bagatelas e de ninharias, não devem ter palpite em tão graves assuntos. No máximo posso lhe dizer, em homenagem ao apelo de seu post scriptum, que dá trabalho ficar horas a fio diante de uma tela, maquinando crônicas, contos, ameaços de novelas ou romances. Ganha-se mais pegando um cinema, assistindo a um concerto, colecionando cismares baldios. Já que isso de inspiração é como visita de médico, um aprendiz de escriba tem de penar na dura estiva de desembarcar idéias no teclado, dispô-las numa ordem razoável, dotá-las de algum ritmo, garimpar à procura da palavra precisa, da exata expressão, do claro conceito. Deve ter a humildade da autocrítica, a coragem de podar trechos inteiros, a infinita paciência de recomeçar. Deve ainda dominar cada armadilha do idioma, manter-se em boas relações com entidades que atendem por nomes desgraciosos, tipo ênclise, próclise, mesóclise, para ficar só nessas. Embora os gregos tenham esgotado há milênios todas as situações dramáticas imagináveis, é essencial ousar a criação de algo novo, de original, de único. Mister também é ser disciplinado, obstinado quase. Provocar os demônios interiores em horas determinadas, ou em cada fiapo do tempo disponível. É não desistir quando um branco se instala em sua mente e você percebe que nenhum pensamento, nenhuma emoção, fantasia alguma circula nesse vácuo, por mais que tente convocá-los à ponta de seus dedos.

Se nada disso o assusta, dr. N., bem-vindo ao clube. Bem-vindo ao clube dos que escrevem não porque sonham com fama ou fortuna. Não porque os tente a fútil vaidade do elogio fácil. Não porque os atraia o falso brilho de um fardão. Bem-vindo ao clube dos que escrevem talvez por teimosos. Ou, quem sabe, porque nenhum outro talento lhes foi dado.

Tão-só essa tola compulsão de iluminar por instantes com um foco, uma lâmpada, uma centelha a isso que chamam de condição humana.

Liberato Viera da Cunha

 

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